A minha mãe ou o meu pai não ouvem bem: o que posso fazer?

Tem reparado que a sua mãe ou o seu pai aumentam mais o volume da televisão, pedem para repetir ou têm dificuldade em acompanhar algumas conversas? Saiba reconhecer possíveis sinais de perda auditiva, como abordar o assunto com sensibilidade e de que forma pode incentivar uma avaliação da audição.
Publicado 8/30/2026,
8/30/2026
4 minutos de leitura
Perda AuditivaReabilitação Auditiva
Pai e filho a arranjar uma bicicleta

Resumo

  • A perda auditiva relacionada com a idade desenvolve-se frequentemente de forma gradual. Por isso, os primeiros sinais podem ser mais facilmente identificados pelas pessoas próximas do que pela própria pessoa. 
  • Falar sobre perda auditiva com empatia, num momento tranquilo e sem julgamentos, pode facilitar a aceitação do problema e a procura de ajuda. 
  • A perda auditiva não tratada pode afetar a comunicação, as relações sociais e a qualidade de vida. O apoio da família pode ser importante para incentivar uma avaliação e procurar o acompanhamento adequado. 

Quais são os sinais de que a minha mãe ou o meu pai podem ter perda auditiva?

A perda auditiva pode desenvolver-se de forma tão gradual que nem sempre é fácil perceber quando começa. Ao longo do tempo, a pessoa vai adaptando alguns comportamentos e pode não ter consciência de tudo aquilo que deixou de ouvir.

Alguns sinais de perda auditiva a que deve estar atento incluem:

  • Aumentar o volume da televisão mais do que era habitual; 
  • Pedir frequentemente para repetir o que foi dito; 
  • Dizer “deixe estar” ou desistir de acompanhar algumas conversas; 
  • Parecer menos envolvido numa conversa ou responder de forma desadequada porque não percebeu tudo o que foi dito. 

Um destes comportamentos isoladamente não significa necessariamente que exista perda auditiva. No entanto, se começar a identificar vários sinais de forma recorrente, pode ser importante incentivar uma avaliação da audição.

 

O que está a fazer com que a audição dos meus pais piore?

Uma das causas mais comuns de perda auditiva em adultos mais velhos é a presbiacusia, ou perda auditiva relacionada com a idade. Trata-se de uma alteração progressiva da audição que ocorre à medida que envelhecemos.

Existem também outros fatores que podem contribuir para a perda de audição, incluindo a exposição prolongada a ruído intenso e determinadas condições de saúde.

Os estudos mostram, por exemplo, uma associação entre diabetes e maior prevalência de perda auditiva.¹ Como estas alterações podem acontecer lentamente e de forma diferente em cada ouvido, é possível que a dificuldade auditiva só se torne evidente passado algum tempo.

Embora muitos tipos de perda auditiva permanente não possam ser revertidos, existe a possibilidade de fazer reabilitação auditiva que pode melhorar a capacidade de comunicação e contribuir para uma melhor qualidade de vida.

 
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Porque é que as pessoas evitam falar sobre a sua audição?

Esta é uma situação comum para muitos filhos adultos. Quando uma mãe ou um pai evita falar sobre a possibilidade de ter perda auditiva, a reação pode estar associada à dificuldade em reconhecer uma mudança gradual ou ao receio do que essa mudança representa.

Como a perda auditiva é invisível e se pode desenvolver lentamente, a própria pessoa nem sempre percebe a dimensão da dificuldade. Além disso, reconhecer que já não ouve como antes pode ser emocionalmente difícil, sobretudo quando é associado ao envelhecimento, à perda de independência ou ao receio de ser visto como menos capaz.²,³

Por isso, aquilo que pode parecer resistência ou teimosia nem sempre o é.

Em alguns casos, é mais fácil atribuir as dificuldades à forma como os outros comunicam (“As pessoas já não falam de forma clara”) do que reconhecer que a própria audição pode ter mudado.

 

Como posso falar sobre a perda de audição dos meus pais sem provocar uma discussão?

O momento, o tom e a forma como inicia a conversa podem fazer toda a diferença. Em vez de tentar convencer imediatamente a sua mãe ou o seu pai de que têm perda auditiva, partilhe aquilo que tem observado e dê-lhes espaço para falar sobre a sua própria experiência.

Alguns princípios podem ajudar:

 
  • Escolha o momento certo

    Evite abordar o assunto durante uma discussão ou imediatamente após uma situação em que a pessoa não tenha percebido alguma coisa. Prefira um momento tranquilo e privado. 
  • Fale a partir daquilo que observa

    Em vez de dizer “Já não ouve bem”, experimente algo como: “Tenho reparado que ultimamente temos de repetir algumas coisas. Também tem sentido alguma diferença na sua audição?” 
  • Pondere envolver outras pessoas

    Se irmãos ou outro familiar próximo partilham a mesma preocupação, o apoio conjunto pode ajudar. É importante, no entanto, evitar que a pessoa sinta que todos se estão a juntar para a confrontar.⁴ 
Lembre-se de que esta pode não ser uma única “grande conversa”. Muitas vezes, é o início de um diálogo que acontece gradualmente.

E se os meus pais não reconhecem que têm um problema de audição?

É possível que a primeira reação seja negar o problema, mudar de assunto ou ficar incomodado. Isso não significa necessariamente que a conversa não tenha sido importante.

Aceitar uma mudança na audição pode levar tempo. Para algumas pessoas, reconhecer uma perda auditiva significa também confrontar-se com o envelhecimento ou com o receio de perder alguma independência.³

Não pode tomar a decisão pela sua mãe ou pelo seu pai, mas pode manter-se disponível para ajudar quando estiverem preparados. Evite transformar todas as dificuldades de comunicação numa discussão sobre a audição e procure manter o assunto aberto, sem pressão.

Quando surgir uma oportunidade adequada, pode explicar que cuidar da audição também é importante para o bem-estar e para manter uma vida social ativa. A perda auditiva não tratada está associada a maior isolamento social e dificuldades de comunicação e tem sido estudada pela sua relação com o declínio cognitivo.⁵

 

Como posso incentivar a minha mãe ou o meu pai a fazer uma avaliação auditiva?

Uma forma de tornar o primeiro passo mais simples é apresentar a avaliação da audição como aquilo que realmente é: uma forma de perceber como está a saúde auditiva, tal como acontece com outros exames de rotina.

Experimente estas abordagens:

  • Comecem por um teste auditivo online: fazer um teste de audição online pode ser um primeiro passo simples para avaliar a audição e ajudar a iniciar a conversa. Pode até fazê-lo juntamente com o seu familiar. 
  • Ofereça-se para acompanhar a consulta: ir à consulta com a sua mãe ou o seu pai pode transmitir segurança e permitir-lhe partilhar algumas das situações que tem observado no dia a dia.
  • Falem com o médico: se existirem dúvidas sobre a origem da alteração auditiva, o médico poderá avaliar a situação e orientar para os cuidados adequados. 

O mais importante é abordar o tema com respeito e empatia. Incentivar alguém a cuidar da sua audição pode exigir tempo, sobretudo quando a própria pessoa ainda não reconhece as dificuldades que os familiares já começaram a notar.

Quando o seu familiar estiver preparado, uma avaliação auditiva realizada por um audiologista permitirá perceber como está a sua audição e, caso seja identificada uma perda auditiva, conhecer as opções de acompanhamento e reabilitação mais adequadas.

O apoio da família pode fazer uma diferença importante neste percurso não tomando decisões pela pessoa, mas ajudando-a a dar o primeiro passo para voltar a acompanhar as conversas e os momentos que fazem parte do seu dia a dia.

 
Audiologista masculino

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Fontes:  

1. PLOS One: Hearing loss as a function of aging and diabetes mellitus: A cross sectional study (2014): doi.org/10.1371/journal.pone.0116161 
2. Journal of Hearing Science: Denial by patients of hearing loss and their rejection of hearing health care: A review (2018): doi.org/10.17430/906204 
3. Ear and Hearing: The self-stigma of hearing loss in adults and older adults: A systematic review (2023): doi.org/10.1097/AUD.0000000000001398 
4. International Journal of Audiology: Coping together with hearing loss: A qualitative meta-synthesis of the psychosocial experiences of people with hearing loss and their communication partners (2017): doi.org/10.1080/14992027.2017.1286695 
5. International Journal of Audiology: To tell or not to tell? Exploring the social process of stigma for adults with hearing loss and their families: Introduction to the special issue (2025): doi.org/10.1080/14992027.2023.2293651 

 

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