Perda de audição e relações
Quando alguém de quem gosta começa a ouvir pior, a mudança não se sente apenas na audição. Aos poucos, pode afetar a comunicação, a proximidade e a forma como vivem a relação no dia a dia. A perda de audição pode ter impacto no parceiro, na família, nos amigos e até na participação social, tornando as interações mais exigentes e, por vezes, mais frustrantes.¹
Para si pode ser difícil começar a sentir que as conversas já não fluem da mesma forma ou que certos momentos partilhados perderam espontaneidade. Para a pessoa com dificuldades auditivas, acompanhar conversas pode tornar-se cansativo e frustrante, levando-a, por vezes, a afastar-se ou a participar menos. Com o tempo, isso pode reduzir a interação social e aumentar sentimentos de frustração, incompreensão e solidão.²
Quando a comunicação se torna mais difícil, também os pequenos momentos do quotidiano podem ser afetados — uma piada, um comentário espontâneo ou uma conversa simples ao final do dia. E são precisamente esses momentos que ajudam a manter a proximidade emocional numa relação.
Reconhecer este impacto é um passo importante para compreender o que está a mudar e encontrar formas de reconstruir a ligação com empatia, paciência e apoio mútuo.
Isolamento Social e Perda Auditiva
Quando ouvir passa a exigir mais esforço, é natural que uma pessoa com perda auditiva comece a evitar ambientes mais ruidosos ou situações sociais que antes apreciava, como restaurantes, encontros com amigos ou convívios familiares.
No entanto, a perda de audição pode afetar muito mais do que apenas a forma como alguém ouve. Pode também influenciar o bem-estar emocional, a vida social e até algumas funções cognitivas.³
Estudos mostram que a audição desempenha um papel fundamental na criação e manutenção de laços sociais.⁴ Quando a perda auditiva não é acompanhada ou tratada, estas interações podem tornar-se mais difíceis, aumentando o risco de isolamento e solidão.⁴
Por isso, incentivar o seu familiar a cuidar da saúde auditiva e a manter uma vida social ativa pode ser um passo importante para preservar não só a qualidade das relações, mas também a saúde do cérebro ao longo do tempo.³,⁴
A boa notícia é que, quando a saúde auditiva se torna uma prioridade, o padrão de afastamento social pode começar a inverter-se.
O uso de aparelhos auditivos pode melhorar significativamente a qualidade de vida da pessoa com perda auditiva e também a comunicação dentro da relação. Estudos mostram que estas soluções podem aumentar a satisfação na relação, melhorar a comunicação entre o casal e reforçar a ligação social.²
A chave para percorrer este caminho com sucesso está na adoção de estratégias de adaptação partilhadas. Quando ambos reconhecem que a comunicação é uma responsabilidade partilhada, torna-se mais fácil encontrar soluções práticas para lidar com as dificuldades auditivas.¹ Este processo começa com um sentido de parceria, compreensão e compromisso mútuo.
A adaptação à perda auditiva e ao uso de aparelhos auditivos pode exigir tempo. Valorizar pequenas conquistas — como desfrutar de um filme juntos ou participar com mais confiança num convívio familiar — pode reforçar a motivação e aumentar a confiança de ambos.
Estes momentos ajudam a reconstruir a ligação emocional e a reforçar o sentimento de proximidade na relação.
Dar passos corajosos para voltar a criar ligação com os outros
Decidir procurar ajuda profissional é um passo importante. Mais do que melhorar a audição, é também uma forma de mostrar à pessoa de quem gosta que ela não está sozinha neste processo.
Os aparelhos auditivos podem melhorar significativamente a participação social e o sentimento de ligação aos outros, devolvendo o prazer de atividades partilhadas e de conversas naturais no dia a dia.⁵
Quando alguém se tem afastado de contextos sociais por causa da perda auditiva, o tratamento pode ajudar a recuperar a confiança e a voltar a participar ativamente na vida familiar e comunitária. Esta participação social é fundamental para o bem-estar emocional, para a saúde mental e para o bom funcionamento cognitivo.⁴
Voltar a ouvir com conforto pode enriquecer não apenas as grandes conversas importantes, mas também os pequenos momentos do quotidiano — as piadas, as histórias e os instantes de cumplicidade que constroem a base emocional de uma relação.
Ao combinar cuidados auditivos especializados com o apoio da família, é possível transformar a experiência da perda de audição numa oportunidade para fortalecer relações e melhorar a qualidade de vida de todos.⁶
Fontes:
1. International Journal of Audiology: ‘Coping together with hearing loss: a qualitative meta-synthesis of the psychosocial experiences of people with hearing loss and their communication partners’, (2017): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28599604/
2. Healthy Hearing: The impact of hearing loss on relationships (October 2021): https://www.healthyhearing.com/report/52619-The-impact-of-hearing-loss-on-relationships
3. Frontiers in Public Health: ‘The impact of hearing loss on cognitive impairment: the mediating role of depressive symptoms and the moderating role of social relationships’, (2023): https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2023.1149769/full
4. Frontiers in Neuroscience ‘Hearing and sociality: the implications of hearing loss on social life’, (2023): https://www.frontiersin.org/journals/neuroscience/articles/10.3389/fnins.2023.1245434/full
5. Ageing & Society: Reconnecting to others: grounded theory of social functioning following age-related hearing loss. (2021): https://www.cambridge.org/core/journals/ageing-and-society/article/abs/reconnecting-to-others-grounded-theory-of-social-functioning-following-agerelated-hearing-loss/75F4A6F9DBF652A3D0599375E1345265